Sobre

A Cia. trabalha, há onze anos, a construção de um discurso poético que debata a sociabilidade do indivíduo negro na sociedade contemporânea e seus desdobramentos históricos, aliado a um projeto de formação de público. Seu percurso parte da experiência disseminada do TEN – Teatro Experimental do Negro, idealizado e gerido por Abdias do Nascimento, que de 1948 ao fim dos anos de 1960, construiu um projeto teatral popular revolucionário, que teve como objetivo central o combate ao racismo e às desigualdades raciais, aliado a uma formação intelectual, lírica e dramática para seus artistas.

O “Teatro Crespos”, herdeiro e agente da continuidade do Teatro Negro, privilegia os traços da diferença, sem suprimir ou menosprezar as semelhanças, fazendo aflorar, no signo que representa o sujeito, o que nele foi ofuscado no percurso da construção de suas imagens. Esse teatro luta pela visibilidade social, política, cultural e artística dos negros e negras; buscando em sua produção, investigar, criar e discutir temas pertinentes à sua pesquisa através de inscrição nos espaços da Cidade de São Paulo, compondo o front cultural com os grupos de Teatro de Grupo da Cidade.

É preciso, antes de tudo, entender que a sede por uma figuração e por fabulações que contraponham a imagem estereotípica clássica dos palcos brasileiros em relação ao negro, encontra cada vez mais bocas e ouvidos e é como contribuição a esse encontro, que Os Crespos desenvolve, além de seus espetáculos e intervenções, projetos artísticos que deem visibilidade a essas criações e que incorporem, ao cenário teatral brasileiro, um público apartado de seus direitos culturais.

 “Na busca por elaborar um discurso poético que discuta o lugar dos negros na sociedade atual, construímos nossa obra e articulamos nossa pesquisa.”

(Os Crespos)

A formação do grupo, já previa os desafios da representação que ousava construir. Figurar uma imagem na contramão da representação clássica dos palcos brasileiros, tendo que lutar por espaço e incentivo num cenário pouco aberto à discussão que a Cia trazia à cena.  Uma verdadeira Missão. Não à toa, o grupo foi convidado para integrar o elenco dirigido por Frank Castorf na montagem de “Anjo Negro + A Missão”, na qual representava um coro consciente e revolucionário, cuja missão era libertar o país da escravidão. Nesta primeira experiência o grupo se formou política e esteticamente, desenvolvendo em suas montagens uma linguagem de sobreposição, fragmentação e ironia que se experienciou na montagem. Além da utilização do vídeo como discurso.

A Cia foi encontrar no “Diário de Uma Favelada”, a fala que daria base para a sua primeira montagem autoral. Com “Ensaio Sobre Carolina” o grupo aprofundou a ironia como discurso e a missão como ofício. A inserção econômica e social do negro era o assunto no qual este aparecia como figura consciente e com força para lutar por seus direitos, apesar de se encontrar em situação de exclusão. Após longo tempo de aproximação com o público através de “Ensaio Sobre Carolina”, Os Crespos começou a se dedicar a uma longa pesquisa intitulada “A construção da imagem e a imagem construída”, que foi contemplada pelo edital Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo em sua XV edição. O primeiro grupo de Teatro Negro a ser fomentado na Cidade. Este projeto investigou a construção da imagem do negro na sociedade contemporânea e seus desdobramentos históricos, através de discurso cênico-áudio-visual. O projeto baseava-se em intervenções artísticas que aconteciam em espaços públicos da Cidade de São Paulo, momento no qual o grupo pode desenvolver uma conversa mais efetiva e uma maior inserção na metrópole. A Cia desenvolveu neste trabalho, uma pesquisa sobre a construção da identidade do negro, na qual o discurso contra o racismo era destrinchado a partir de temas ligados à experiência social deste indivíduo.

Ainda na investigação sobre a identidade o coletivo decidiu falar de amor com o projeto “Dos Desmanches aos Sonhos – Poética em Legítima Defesa”, na tentativa de discutir a importância da saúde emocinal para a construção da identidade da mulher e homem negros. Durante a pesquisa o grupo se deparou com uma infinidade de questões sobre a afetividade, a relação com seu corpo e com o desejo. A construção dos espetáculos partiu da perspectiva do impacto da escravidão na forma de amar da população brasileira. Cada espetáculo investigou as relações afetivas sob uma particularidade. No primeiro, a pesquisa investigou as questões de casais heterossexuais, tentando entender suas dificuldades no amor. No segundo, a Cia. pesquisou sobre a afetividade de mulheres negras, sua relação com a família, a alteridade e o sexo. Já no último trabalho, o mote era a homoafetividade.

Hoje, através do projeto “De Brasa e Pólvora – Zonas Incendiárias, Panfletos Poéticos”, a Cia investiga as evoluções e revoluções políticas latino-americanas a partir dos levantes negros no Brasil e no Caribe, tendo em vista a construção imaginária de uma revolução poética a favor da abolição do racismo. Compreendendo as diversas lutas negras como tochas acesas para o estopim das transformações sociais antirracistas.